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Note: This post is in Portuguese.
O livro conta a história de Riobaldo como jagunço. Ele é o narrador, conversando com uma pessoa que permanece em silêncio (então é mais como um monólogo).
Eu achei a linguagem do livro bem difícil de entender, pois busca imitar o jeito como os jagunços falam. O narrador faz indagações filosóficas o tempo todo. Algumas são interessantes, mas achei a maioria confusa.
Uma parte confusa para o leitor moderno é que o termo sertão conjura a imagem da caatinga do interior nordestino.
O termo sertão era mais geral e, no caso do livro, se refere ao interior de Minas Gerais, onde ecossistema está mais para cerrado do que a caatinga. Veredas são áreas onde o lençol freático chega próximo à superfície, o que permite o crescimento de um tipo de palmeira chamado buriti (mencionado diversas vezes no livro).
O livro não menciona datas específicas, mas podemos inferir que se passa por volta do fim do século XIX. Nessa época, o governo tinha pouco controle do interior do estado, então milícias privadas eram usadas para manter o controle. Membros desse exército privado eram chamados de jagunços.
Jagunços vs. cangaceiros. O cangaceiro é parte de um grupo independente e itinerante, fazendo uso de extorsões, algo mais típico da imagem de um fora da lei à qual estamos acostumados.
Riobaldo, como jagunço, vive matando outras pessoas e faz isso sem grandes remorsos. Porém, ao ver um inimigo sofrendo, diz:
O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.
Isso indica que o sofrimento é ruim mesmo quando vem de um inimigo. Imagino que esta contradição seja semelhante àquela com a qual soldados, na maioria cidadães de bem, têm que lidar em caso de guerra.
E também:
Dó de amizade é num sofrerzinho simples, e o meu não era.
Quando seus companheiros de batalha morrem, sugerindo que seus companheiros eram mais que amigos. Na mesma linha, ele considera, após seu grupo adoecer devido a uma onda de varíola, o contraste entre os companheiros cuidarem uns dos outros e, ao mesmo tempo, considerarem atacar uma vila de inocentes.
Boa parte do livro envolve Riobaldo pensando se o diabo existe ou se é parte da natureza humana.
Na presença de um agente externo, Riobaldo tem dúvidas sobre as próprias ações. Após decidir que o diabo não existe, ele muda o modo de ver as coisas e decide tomar as rédeas do próprio destino.
“A maior felicidade era ele não saber quem tinha acertado nele aquela bala, não carecer de imaginar onde era que tal pessoa estava, nem de ódio constante repensar nela”.
“As coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente”
Quando se torna chefe, Riobaldo percebe que é poderoso e pode matar um homem inocente sem consequências. Ele considera a possibilidade, mas, no fim, decide poupar a vida do homem. Outra instância em que ele menciona uma mudança devido ao poder:
(…) Mesmo pessoa amiga e cortês, virando patrao da gente, vira mais rude e reprovante.
Ao descrever a vez em que ofereceu seus serviços a um comerciante alemão.
“Não entendi por que ele fez isso. Ele deve saber alguma coisa que eu não sei.”
quanto menos me entendiam, mais me respeitavam
Essa passagem mostra sua personalidade e a expectativa para com os outros:
Eu sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam.
e também:
Vivendo se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.
isto é, quanto mais aprendemos, mais perguntas profundas temos. Similarmente:
A gente só sabe bem aquilo que não entende.
Uma maneira de interpretar isso é que as partes íntimas da gente, com o qual estamos mais acostumados, é difícil de pôr em palavras. Na mesma linha:
O que eu não entendo hoje, naquele tempo não sabia.
Que eu interpreto como no momento que a gente começa a prestar atenção nas coisas e fazer perguntas percebemos quanto não as entendemos.
As divagações filosóficas de Riobaldo me lembram bastante o narrador de Notes from Underground, de Dostoiévski.
Uma passagem bonita e profunda:
Passarinho cair de voar, mas bate as asinhas no chão. A gente sente saudade de momentos bons mesmo antes dele acabar.
Isto é meio paradoxal, pois quando estamos gostando do momento, uma parte racional da nós, ao invés de aproveitar o momento, fica pensando em como ficaremos triste quando acabar. Esta ideia me lembrou muito da entrevista do prof. Clóvis de Barros Filho ao Jô Soares em que ele descreve o momento em que ele está gostando muito de fazer uma palestra e pensa: “eu não queria que aquilo acabasse”.
Outra citação relacionada ao tempo:
Me vinha a ideia de tudo só ser o passado no futuro.
Recentemente li sobre isso no livro Metaphysics: A Very Short Introduction.
Apenas recentemente comecei a prestar atenção na complexidade de personagens. Riobaldo é um dos personagens mais complexos de que eu me lembro: age às vezes sem razão, tem conflito interno, muda de opinião rapidamente.
Em um momento, ele fala:
Eu careço que o bom seja bom e o ruim ruim.
Isso demonstra seu desejo de que as coisas fossem mais bem delineadas, mas, como ele próprio, as coisas são mais complicadas na realidade.
Um grande contraste é com Elijah, a personagem principal de Caves of Stell de Asimov, que é relativamente simples e predizível.
Riobaldo menciona essa frase múltiplas vezes. Podemos interpretar essa frase mais liberalmente como:
Gostei muito do enredo e do tema (jangunço), da complexidade de Riobaldo e seus pensamentos internos, mas desgostei demais da linguagem. Eu entendo que seja parte da obra, mas dificultou muito a leitura, por isso minha avaliação seja apenas 3/5.